segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Prática da Mediunidade

LEON DENIS - ESPÍRITOS E MÉDIUNS




O estudo e aplicação das faculdades medianímicas são de capital importância, já que, segundo o uso que se faça desses dons, podem resultar em um bem ou em um mal para quem os possua e para a causa que pretenda servir.
O Espiritismo é uma arma de dois gumes: arma poderosa – com o apoio dos espíritos elevados – para combater os erros, a mentira e todas as misérias morais da humanidade; mas também uma arma perigosa pela ação dos espíritos inferiores e maus. Nesse caso, pode voltar-se contra os médiuns e os experimentadores e ferir-lhes a saúde e a dignidade, causando desordens graves.
Na experimentação espírita, tudo depende dos invisíveis. A natureza e a qualidade de sua ação variam segundo o valor das entidades que se manifestam.
Os espíritos elevados derramam, sobre nós, fluidos puros e benéficos, que reconfortam nossas almas e acalmam nossas dores, predispondo-nos à bondade e à caridade. Em nosso relacionamento com eles, obtemos as forças necessárias para vencer nossos defeitos e nos aperfeiçoarmos.
As manifestações dos espíritos inferiores podem ser úteis pelas provas de identidade que proporcionam, mas, sem demora, seus fluidos pesados e maus alteram o estado de saúde dos médiuns, turvam seu juízo e sua consciência e, em certos casos, desembocam na obsessão e na loucura.
As trágicas cenas descritas pelo Dr. Paul Gibier em seu livro Espiritismo ou Faquirismo Ocidental, das quais quase termina vítima, e os exemplos que encontramos um pouco em todas as partes, nos demonstram, até à evidência, os riscos que se corre ao se estabelecer relações continuadas com os levianos do espaço.
Praticar o Espiritismo sem rodear-se de precauções necessárias equivale a abrir a porta, de par a par, para os assaltantes de rua.
Recordemos em que consistem as precauções indispensáveis. Antes de cada sessão, há que se invocar os espíritos guias e assegurar uma proteção eficaz que, afastando as más influências, estabeleça no ambiente invisível a mesma disciplina que o presidente do grupo deve impor aos assistentes.
Com este fim, Allan kardec recomenda a oração e nós não titubeamos em insistir nesse sentido.
Sem dúvida que, como a ele, nos chamarão de místicos, mas o que fazemos é observar e aplicar a lei universal das vibrações, que une todos os seres e todos os mundos e os liga a Deus.
A Ciência começa apenas a balbuciar os primeiros elementos dessa lei com o estudo da radioatividade dos corpos, com a aplicação das ondas e correntes à longa distância. Mas, à medida que prossiga nas investigações do Invisível, comprovará sua maravilhosa harmonia e suas vastas consequências.
A partir deste ponto de vista, lhe estão reservados esplêndidos descobrimentos, porque nisso reside todo o segredo da vida superior, da vida livre do espírito no Espaço e as regras de suas manifestações.
Com o pensamento e a vontade podemos pôr em movimento todas as forças escondidas em nós mesmos. Nossas irradiações fluídicas se impregnam das qualidades ou dos defeitos dos pensamentos e criam, em torno de nós, um ambiente de conformidade com nosso estado de alma.
Como a oração é a expressão mais alta e mais pura do pensamento, traça uma via fluídica que permite às entidades do Espaço descerem até nós e se comunicarem; nos grupos ela constitui um meio favorável à produção de fenômenos de ordem elevada, ao mesmo tempo que preserva contra os maus espíritos.
Para que seja eficaz e produza todo o efeito desejado, a oração deve ser um chamamento ardente, espontâneo e, por conseguinte, de breve duração: pelo contrário, as orações vulgares, recitadas da boca para fora, sem calor comunicativo, não produzem senão irradiações débeis insuficientes.
Fácil, portanto, será compreender a necessidade de que haja, nas sessões, união de pensamentos e vontades. Deve-se ter presente, sobretudo, a importância que exercem nas emissões fluídicas os sentimentos de fé, de confiança, de desinteresse, em uma palavra: todas as qualidades morais, as facilidades que elas dão aos bons espíritos, de par com os obstáculos que opõem à ação dos espíritos mal-intencionados.
E, tudo isso, sem excluir o livre exame e as condições de controle que nenhum observador deve abandonar jamais.
Tão pouco há que se surpreender se os resultados obtidos são relativamente trabalhosos e pobres em ambientes em que reina uma atmosfera de ceticismo, onde se pretende dar ordens aos fenômenos e aos espíritos, e nos que, sem saber, criam travas às manifestações de ordem elevada.
Ademais, o presidente de cada grupo deve esforçar-se em obter silêncio e recolhimento durante as sessões, e evitar as perguntas inoportunas e demasiado pessoais, que pretendam dirigir aos espíritos, para manter, dentro do possível, a união dos pensamentos e das vontades, dirigindo-os para uma finalidade comum.
Os pensamentos divergentes e as preocupações materiais formam correntes desencontradas, uma espécie de caos fluídico, que dificulta a intervenção dos guias, enquanto que a concordância de intenções e de sentimentos estabelece a fusão harmônica dos fluidos e cria um ambiente propício à sua ação.
A sessão deve terminar com algumas palavras de agradecimento aos espíritos protetores e convidando os participantes a aproveitar os ensinamentos recebidos, praticando a moral que deles se deriva.
Com suas críticas, nossos contraditores inexperientes demonstram, com frequência, sua escassa competência nestes assuntos. Mas, por outro lado, todos os magnetizadores conhecem a propriedade que têm os fluidos de refletir exatamente nosso estado de ânimo e sabem imprimir-lhes, às vezes, qualidades benéficas e curativas.
Também é possível demonstrar, experimentalmente, a existência e a variedade infinita desses fluidos que diferem em cada personalidade.
Pode-se facilmente tirar placas fotográficas com as irradiações que se desprendem de nossos cérebros, e registrar os fluidos que variam segundo as disposições pessoais.

O exercício da mediunidade encontra dois obstáculos temíveis: o espírito de lucro e o orgulho. (Quantos médiuns começaram animados de um sincero desejo de servir à nossa causa e terminaram, por causa do orgulho, por cair no ridículo, convertendo-se em motivo de zombaria para todos!)
A satisfação de si mesmo é perfeitamente legítima, quando é o resultado de qualidades ou de méritos adquiridos por meio de trabalho ou estudos prolongados. Como sentir orgulho por uma faculdade que veio do Alto e que não precisou de gastos nem esforços?
O orgulho é o que inspira essas rivalidades, essa inveja mesquinha entre médiuns, causa frequente de desunião em alguns grupos. É preciso que cada um se contente com o que recebe.
Quando o médium está isento de vaidade, é franco de coração, e, com a sinceridade de sua alma, aos olhos de Deus, oferece seu concurso aos bons espíritos, estes se apressam em assisti-lo e o ajudam a desenvolver suas faculdades.
Cedo ou tarde levam até junto dele os parentes falecidos, os amados mortos, reatando-se uma doce intimidade, fonte de alegrias e consolos. Pouco a pouco o médium vai se tornando o artífice bendito da obra de renovação. Recebe e transmite as instruções que iluminam a vida e traçam a via de ascensão para todos, proporcionando, assim, a ajuda moral que faz mais fácil o dever e mais suportável a prova.
Assim, com os ensinamentos dos espíritos, a noção de justiça se estenderá pelo mundo. Ao saber que viemos quase todos para expiar faltas anteriores, o homem não se mostrará tão inclinado a murmurar contra a sua sorte, e seu pensamento se elevará acima das misérias deste mundo, evitando que seus atos ou suas palavras aumentem o peso das injustiças que sobre si recaem. Então a vida social poderá melhorar, e a humanidade adiantará um passo.
Todas essas humildes vidas de médiuns que, a não ser por isso, ficariam obscuras e insignificantes, se verão enriquecidas pela missão recebida, iluminadas por um raio divino e se converterão em elementos de progresso e de regeneração.
O contato com o Invisível, com as almas puras e grandes, aumenta as faculdades psíquicas e multiplica os meios de percepção. Nas sessões bem dirigidas, o médium percebe, cada vez mais, as irradiações, os fluidos dos mundos superiores. Experimenta uma dilatação de seu ser, uma soma de gozos que escapam à análise e que são, como uma antecipação da vida espiritual, um prelúdio da vida do espaço. É uma compensação oferecida, já nesta existência, às fadigas e trabalhos pelo exercício da mediunidade.

O médium sincero, leal, desinteressado – como dizíamos – pode estar seguro da assistência dos bons espíritos; mas se ele se deixar invadir pelo amor ao lucro, ou pelo orgulho, os Espíritos Guias se afastam e deixam o caminho aos espíritos fracos e atrasados. Então, aumentam os enganos e as fraudes. Aparecem mensagens firmadas com nomes pomposos de estadistas, reis, imperadores ou poetas célebres, porém, quando se passam essas comunicações pela peneira da razão e da reflexão, nos damos conta de que somos vítimas de uma fraude.
Não é que queiramos dizer que esses grandes espíritos não se comunicam nunca, mas aconselhamos a maior prudência neste ponto, pois sabemos, por experiência, que os espíritos elevados, que tiveram nomes ilustres na Terra, não gostam de vangloriar-se deles, preferindo manifestar-se com nomes alegóricos e pseudônimos. Vários médiuns contribuíram, dessa maneira, a desnaturar o Espiritismo.
Allan Kardec, pela retidão de seu caráter, a dignidade de sua vida e pela elevação de seus pensamentos, teve o privilégio de atrair espíritos nobres e elevados. Leiamos e meditemos seus livros, que são a expressão da mais pura sabedoria e verdade.
Por exemplo, em suas obras este grande escritor sempre se levantou, com vigor, contra o princípio da mediunidade assalariada, como causa de abusos inumeráveis.
Recordemos, antes de mais nada, que a mediunidade é variável, inconstante e pode desaparecer tal como veio. Não exige estudos prévios, nem usa laboriosa preparação como na aquisição de uma arte, de uma ciência, etc. É um dom que é retirado, quando se abusa dele.
Os exemplos disso são frequentes. A mediunidade, cujos resultados são muito diferentes segundo os lugares, o ambiente e a proteção oculta, e são com frequência negativos, pouco serviria a uma utilização regular e contínua. Os guias sérios, os espíritos elevados não se prestariam a isso.
Admitimos, não obstante, que os sábios e os experimentadores que se servem das faculdades de um médium e monopolizam seu tempo, firmem com ele um compromisso e o indenizem por suas viagens e pelas horas perdidas. Assim mesmo, consideramos que os grupos devem aos médiuns, depois de prolongados serviços, mostras de simpatia e atenção, com a condição de que isso não atente contra o princípio da mediunidade gratuita e desinteressada.
Poderá alegar-se que faz cinquenta anos que Allan Kardec faleceu; que as circunstâncias mudaram, que o Espiritismo se estendeu, e a Ciência começa a interessar-se por seus fenômenos, sendo, portanto, conveniente proporcionar os meios que lhe permitam comprovar e confirmar tais fenômenos.
A isto responderemos que os conceitos formulados por Allan Kardec não perderam nada de sua oportunidade. E, precisamente porque o Espiritismo se estende e está chamado a representar um grande papel, porque leva a si os elementos de salvação e de regeneração, é que se há de preservá-lo de toda mancha e evitar, quanto possa, diminuir seu valor e sua beleza. Porém, o que é incontestável é que todo tráfico inspira desconfiança. O afã de ganhar leva ao charlatanismo e ao engano. Quando o médium adquire o costume de tirar proveito material de suas faculdades vai resvalando, pouco a pouco, para a fraude porque, se os fenômenos não se produzem, procura imitá-los.
Em todas as partes em que o Espiritismo é objeto de comércio, os espíritos sérios se afastam e os espíritos inferiores vêm ocupar seu lugar.
Nesses ambientes, o Espiritismo perde toda a influência benfeitora e moralizadora para converter-se em um verdadeiro perigo, em uma exploração da dor e das recordações dos mortos.
Em resumo, repetimos aos espiritistas e aos médiuns em vossas reuniões, pratiquem sempre o recolhimento e a oração; que esta seja como um facho luminoso que alcance diretamente seu fim, e atraia os bons espíritos; se não for assim, não virão as almas que desejam, não virão vossos mortos queridos.
Não façais de vossas sessões um objeto de diversão, de curiosidade, um espetáculo para boquiabertos, mas um ato grave e solene, um ato de cultura intelectual e moral. Não atraiam os espíritos de ordem inferior, cujos fluidos podem alterar vossa saúde e provocar casos de obsessão. Não evoqueis vossos guias, senão com a consciência de que o fazeis com respeito.
Todos têm sua missão a cumprir no Mais-Além; suas ocupações são múltiplas e absorventes. Sua vida está muito distante de ser a beatitude sonhada; é uma atividade constante, uma dedicação abnegada para todas as grandes causas.
Seus ensinamentos, seus conselhos os ajudarão a suportar as vicissitudes da existência terrena, eles vos darão a certeza de novas vidas futuras, vidas de trabalho, de purificação, de dever, por meio das quais vossas almas, ao se fazerem mais tolerantes, subirão um dia para essas esferas luminosas, nas quais começarão a desfrutar as alegrias do Infinito.

Neste momento, levanta-se sobre o mundo uma grande esperança, começa a despontar uma nova aurora para o Pensamento e para a Ciência. O Espiritismo, que se baseia na verdade, é imperecível, mas sua marcha pode se ver entorpecida pelos erros e faltas de seus próprios partidários, muito mais do que pela oposição e manejos de seus adversários.
Chagará um dia em que tudo quanto ensinam os espíritos, faz quase um século, sobre o períspirito, os fluidos, a sucessão de existências, tudo será admitido como certo e confirmado pela Ciência.
Reconhecer-se-á então a importância da oração na comunicação universal dos seres. E as ladainhas monótonas e intermináveis da Igreja cessarão, para dar lugar ao grito da alma para seu Pai, ao chamamento ardente do ser humano àquele de quem tudo emana e para quem tudo volta eternamente.
Quando tal dia chegar, a Religião e a Ciência se fundirão em uma concepção mais ampla da vida e do destino. O Espiritismo será o culto da família; o pai, mais instruído, mais culto, substituirá o sacerdote; a esposa e as filhas serão as médiuns por cujo intermédio os antepassados, as almas dos avós se manifestarão e assegurarão sua influência moral. Será o retorno à religião franca e primitiva, enriquecida pelo progresso e a evolução dos séculos; sobre esse culto familiar cimentar-se-ão as imponentes reuniões e as mais altas manifestações da ordem estética.
Entretanto, para que o Espiritismo realize todo o seu programa renovador, terá que afastar de seu seio os germes mórbidos e todos os elementos maus que poderiam entorpecer ou deter seu impulso. Deste modo, a responsabilidade dos espíritas é grande. Eles devem evitar, com cuidado, tudo quanto possa retardar o grandioso florescimento de nossas crenças e de seus efeitos moralizadores.
O Espiritismo, depois de haver sido, tanto tempo, repudiado, menosprezado, se impõe definitivamente pelo poder de seus fatos e pela beleza moral de sua doutrina. Converteu-se numa força radiante que se estende progressivamente pelo mundo.
Depois das provas de uma guerra de cinco anos, depois do luto e do vazio causado por tantas partidas, muitos olhares chorosos se voltam para ele.

Nós, que temos conhecido as dificuldades e os sofrimentos do princípio, comprovamos, com alegria, este imenso impulso que leva as almas para nossas crenças. Contudo, para assegurar a difusão e o triunfo definitivo, para obter o respeito de seus adversários e desempenhar o papel salvador que lhe corresponde na obra de ressurgimento da pátria, o Espiritismo deve cumprir uma condição absoluta, sem a qual não é possível êxito algum, e esta condição não é outra senão a de ser sempre honrado, seguindo as tradições de seu venerado fundador.